sexta-feira, 31 de agosto de 2007

como sumir.

Encarando a parede lilás recém pintada, ela pensava:
"diaabos! por que é que eu simplesmente não posso sumir?"
Então ela se remexeu, encostou os pés na parede, e quis sumir de novo. A cena se repetiu mais umas três vezes, até uma música lenta começar a soar e ela sentir uma força incomum se apoderar dela.
Não era nenhuma vontade de gritar, nem de quebrar coisas, como das outras vezes. Sentiu vontade de fechar os olhos, e foi isso que fez, contrariando a sua consciência martelar dentro dela, tentando avisar que ela tinha milhares de coisas para fazer.

Ouvindo os acordes suaves, ela pode ver uma cena antiga, quase que feita em sépia. Uma mão sendo beijada, uma dança, um vestido que com certeza era mais antigo do que ela. Viu coisas que ela sabia não pertencerem a sua vida atual e que ela não tinha idéia de como haviam surgido em sua cabeça.

Enquanto o cisne a deixava com uma tristeza sem igual no olhar, ela se balançava de um lado para o outro, enxergando através de paredes feitas de vidro, onde todas as pessoas pareciam ter fios dourados interligando-se.

Enquanto ela via salões de baile e borboletas luminescentes passando pela sua cena, a música seguia lenta e triste, e ela punha seus maiores desejos em tudo aquilo, longe e longe da realidade.
Tentando prolongar o devaneio, porque seu instinto avisava que no final dele, todos os seus medos e os seus problemas estariam a sua espera.

Mas enquanto ela não os reencontrava, ela bordava estrelas no céu, e andava por sobre as nuvens: Havia encontrado a sua maneira de sumir do mundo, pelo menos por alguns breves instantes.
Instantes que comportariam outras vidas...