E então, em um dia quente e quieto, ele chega: por mais que você tenha corrido e se negado a deixar ele entrar, por mais que tenha lembranças de outros dias e por mais que tenha cicatrizes ainda recentes (e outras nem tanto) no coração. Ele não quer saber e é teimoso feito criança alegre e invade o recinto mesmo assim.
E daí pra frente tudo vira esperança, mesmo sem querer. E daí pra trás, tudo acaba virando apenas um monte de fotografias em sépia.
Insistente, ele não vai parar de te cutucar até você assumir que sabe que ele está presente, até você se deixar levar pela correnteza e sentir os pés serem arrebatados sem a mínima dó do chão.
No começo é aquela vertigem confusa, um rodamoinho de cores e uma dor de cabeça insana por tentar se prender a algo sólido, mas enfim tudo se estabiliza e volta aos eixos, mas não da mesma forma que era: você passa a ter uma percepção melhor das coisas, porque lhe parece que o sol brilha e esquenta mais, dá pra ouvir o barulho dos passarinhos alegres e as nuvens que até então tinham sido simples denúncia de vapor no céu, passam a ter desenhos perfeitos.
As pessoas lhe parecem mais simpáticas, ou você é mais simpático com as pessoas, que seja. O que vale é que há sempre um sorriso em você, mesmo que não haja demonstração física disso, mesmo que esse sorriso seja apenas de você para você mesmo.
E ainda tem um fator extra que melhora as coisas de uma forma quase absurda: há alguém do teu lado, alguém com as mãos entrelaçadas nas tuas, alguém que sente o mesmo que você, ou que pelo menos sente coisas muito parecidas e isso causa uma sensação tão grande de conforto, de segurança, que você jura ser capaz de fazer coisas que nunca havia cogitado em fazer só pra ter aquela pessoa cada vez mais perto, mas essa insanidade não é algo ruim.
Finalmente você pode entender o que as borboletas diziam em silêncio, porque agora você pode percebê-las e pode ver que pelo menos uma cruza o seu caminho durante o dia. Finalmente você pode entender o poeta inebriado que diz "De tudo ao meu amor serei atento..." que antes você achava tão piegas e ultrapassado. As coisas acabam tornando-se muito mais fáceis de serem entendidas e muito mais simples também. Você sorri porque está feliz, você sorri porque encontrou a
felicidade.
E mesmo que você seja louco desestabilizado, incompreensível e alguém cheio de manias e dúvidas, as mãos continuam corajosamente entrelaçadas nas tuas, os abraços continuam sendo apertados como se não houvesse defeito algum, como se não importasse nem um pouco a sua neurose que vem nos dias ímpares e múltiplos de 3, porque mesmo ela sendo uma baita esquisitice, surge algo que chama aceitação, misturada a uma grande parcela de carinho. Um carinho que você não sabe nem explicar porque existe, porque há tantos motivos em você para que o outro deseje o contrário, mas este contesta todos os fatores negativos e como que em desafio, permanece forte em seu lugar.
Isso sem falar na felicidade que invade o seu lar, invade os seus olhos - eles denunciam, pelo brilho, que agora você é uma pessoa plenamente feliz -, é quase um escândalo o que acontece com você, finalmente dá para você contar sobre os seus planos, dá para falar besteiras sem medo, dá pra ter a cara amassada de sono ou inchada de chorar e para usar uma camiseta que seja parecida com um pijama e ainda assim ter um olhar de admiração acompanhando cada passo que você dá.
Mas não adianta ficar falando aos quatro ventos sobre o sentimento - mesmo que dê vontade de falar sem parar - porque ainda há, no mundo, pessoas que não sentiram o mesmo que você, mas pouco te importa porque no momento, aquelas mãos continuam atadas firmemente às suas.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
sublime
sábado, 24 de outubro de 2009
quereres
Eu queria ter mais presença de espírito, ser alegre por mais tempo. Queria saber tocar violão, queria ter paciência pra fazer cachos nos cabelos, ou mesmo de cuidar deles decentemente.
Eu queria ser mais bem arrumada, descascar menos a droga da minha unha recém pintada do indicador, porque ela não dura nem uma hora completa.
Queria saber arrumar briga, mas antes queria aprender a dar umas boas pancadas pra pelo menos garantir alguma defesa e ao mesmo tempo queria ser menos bocuda e não xingar tanto no trânsito. Gostaria de me aborrecer menos, de esperar menos das pessoas e de não me decepcionar tanto. Queria eu mesma não decepcionar tanto e não ser tão ridiculamente impulsiva em certos casos. Queria aprender a fazer trança embutida, a não ser tão preguiçosa e aprender as coisas com vontade e em seguida faze-las, ao invés de ficar esperando que se façam sozinhas.
Queria aprender a cozinhar melhor, a aconselhar melhor, a cantar melhor – porque esse é o desastre mais decepcionante da minha vida - a ser uma pessoa melhor e não ter que fazer esforços para isso, que a melhora fosse natural como piscar os meus olhos.
Queria ser mais carinhosa, ser mais atenciosa e enquanto isso prestar mais atenção e não ser tão insuportávelmente distraída em momentos que podem ser cruciais, queria ser mais inteligente e ter explicação para tudo que vai na minha cabeça, mas infelizmente essa praga de massa encefálica é muito mais rápida do que a minha percepção.
E mesmo assim vou, querendo e não fazendo, ou pelo menos tentando em alguns casos, tentando sempre ser melhor mas acabando sempre do mesmo jeito turrão e difícil.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Conhecer a vida
Vou arrumar uma mochila vermelha, encher de porcarias e vou me mandar assim que eu puder. Vou andar sozinha pelas avenidas enormes, uma forasteira desconhecida de todas as faces que lá transitam, assim como todas aquelas faces desconhecerão a minha.
Eu vou me perder em alguma floresta, numa tarde ensolarada. Verei esquilos e pássaros exóticos, e nenhum perigo me circundará. Vou correr em círculos em volta de mim mesma e sempre me encontrar.
Eu vou andar pela guia, me equilibrando sossegadamente, pé
ante pé até chegar em lugar nenhum. Vou vender alguns pertences insignificantes, vou comprar pedaços da história de alguém. Deitarei na grama fria depois do anoitecer e aprenderei toda a transição do céu e das estrelas, saberei o nome e a posição de cada constelação existente.
Voltarei a ver o céu de veludo azul marinho e cheio de estrelas de terras distantes e não vou perder outra vez a oportunidade de fazer uma foto para mostrar para os meus filhos e netos, caso os venha a ter. Se não os tiver, mostrarei a amigos, vizinhos. Verei sozinha, se for preciso, mas não deixarei meus olhos esquecerem jamais daquilo que vi.
Vou deixar o cabelo crescer mais, só pra poder sentir o vento sacudi-los ou bagunça-los, conforme eu ande contra ou a seu favor. Vou sentar na beira de uma estrada de terra e cantar uma canção com a voz e com o coração, olhando para as nuvens brancas no céu, sentindo a brisa encher os meus ouvidos de sussurros de vozes antigas.
Buscarei meus deuses e meus heróis, encontrarei luz infinita. De todas as verdades que aprenderei, a mais forte será a de que conhecimento nunca é demais e a mais absoluta será a de que a vida é bela. Muito bela, e canta uma música tão envolvente que quem se recusa a ouvi-la só pode ser louco.
Eu vou aprender a tocar violão, a fazer contas de cabeça, vou pintar o cabelo de laranja e vou fazer uma tatuagem que ocupe as minhas costas inteiras.
E assim, depois de muito ver, muito ouvir e mais ainda aprender, voltarei à minha casa fechada, a vida renovada e a mente completamente aberta a todas as coisas. A vida vai ficar mais fácil de viver e eu posso estar velha como o tempo, mas terei o gosto de dizer que vivi como eu tinha que viver e que vi muito mais do que um dia achei que fosse possível;
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Sessão pipoca
A minha vida daria um filme de romance. Daqueles bem piegas.
Cheia de reviravoltas, onde o mocinho conquistador vira vilão em questão de minutos e um príncipe completo aparece bem onde parecia ser o início dos créditos finais, dando um final inesperado a trama.
Um daqueles de mistério, que quando se espera um acontecimento, outro totalmente diferente acontece, surpreendendo o espectador - e a protagonista!
Na minha vida, também tem filme de terror, com longos períodos de escuro e de medo profundo. Com corredores de hospital e sustos de gelar o sangue. Tem drama mexicano, com baldes de lágrimas acumulados que depois poderiam servir de chuva para o cenário e cenas em que eu me jogo na cama perguntando por que o mundo é cruel.
E depois vem a parte de auto ajuda, onde consigo perceber que depois de um dia ruim vem um um pouco melhor, e dias de céu azul não resolvem problemas, mas dão um bem estar danado, vem a aceitação e a parte em que a menina sem graça vira a cinderela, ou quando a maria mijona dá a volta por cima e se prova mais forte do que qualquer um imagina.
drama, desenho animado, comédia ou suspense... seja qual for o gênero ou o elenco, tenho certeza de que a minha vida carregará pelo menos um curta metragem.
Texto para o TudoDeBlog da Capricho: A minha vida daria um filme.
Crescendo e Aprendendo
Crescer é natural. Um dia a menina descobre que é mulher e que várias coisas vão mudar em seu corpo, mesmo que ela não tenha vontade.
Assim é crescer, de repente, no sofá da sala da minha irmã eu fiquei sabendo que Papai Noel não existia, descobri que fui enganada e senti minha inocência de criança sendo despedaçada. Nesse exato momento, com uma certa dor, senti-me invadindo o mundo dos adultos e pouco a pouco, me adaptando sem querer.
Hoje em dia, só percebo que faço parte desse mundo adulto quando vejo o brilho nos olhos de uma criança ao ver as luzes e cores de um brinquedo novo - porque se não for assim, nem lembro que sou oficialmente adulta: meu lado criança é sempre tão presente que na maioria do tempo, me sinto uma menininha de maria chiquinha e saia rodada.
Texto para o Tudo de Blog: Quando percebi que não era mais criança? Doeu? Foi bom? (…)
domingo, 30 de agosto de 2009
Amor amigo
Apaixonar-se por um amigo não é uma coisa lá muito fácil. O primeiro sentimento que surge é o medo de perder toda a confiança e a amizade bonita que foi construída dia-a-dia. Mas a vida as vezes prega peças, inclusive nos melhores amigos que viam-se como irmãos e um dia começam a se olhar de um outro modo, quase que sem querer.E já que se está correndo o risco, o bom mesmo é se jogar de cabeça na nova situação, se o sentimento é recíproco e a amizade é forte. Porque se uma amizade é forte, ela resiste mesmo se alguma coisa no relacionamento despencar. E diga-se de passagem, amar um amigo é a coisa mais divertida e mais colorida que pode acontecer, pode se conversar com liberdade sobre qualquer coisa e o namorado, por antes ser seu amigo, não vai nem ligar para aquela mania estranha que você tem. Ter um melhor amigo é uma coisa de preço altíssimo, mas ter um namorado melhor amigo é simplesmente impagável quando não se tem medo de arriscar.
Pauta para o TDB: E se o seu BFF se apaixonar por você?
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Versos verdes
Já perdera as contas de quantas vezes tinha dito a mesma coisa, de quantas vezes esclarecera para dois segundos depois parecer que não tinha dito nada e o mais irônico de tudo é que ela não largava a situação, simplesmente porque não tinha a mínima vontade.
É claro que pelo menos uma vez por dia ela ameaçava ir embora, pegava o casaco onde quer que ele estivesse, procurava as chaves na bolsa, arrumava o cabelo rapidamente e marchava
decidida para a porta, mas fazia tudo isso esperando pra sentir o aperto da mão dele em seu braço ou em sua mão, segurando-a, impedindo-a. Ela não sabia porque fazia aquilo e sabia que um dia ela não sentiria aquele aperto forte, meio nervoso e então ela teria que caminhar sozinha - se sentindo mais vazia e com mais frio do que nunca.
Ainda assim, gostava de ver aquele olhar intenso nos olhos dela, num pedido mudo para não fazer brincadeiras daquele tipo, censurando-a em silêncio e ainda que visse uma sombra de raiva dela, não sentia o menor medo. Até gostava de ver aquela raiva perpassando os olhos dele, porque era ligeiramente louca, porque amores incomuns faziam muito mais o feitio dela e na concepção dela amor tinha que ter dessas coisas, além de beijos um pouco desesperados, mãos entrelaçadas e toda a proximidade que ela descobriu necessitar de uma hora pra outra, por mais que ela odiasse admitir.
De todas as coisas que ele fizera despertar nela, aquela necessidade de estar perto, de estar junto e de discutir por cada ponto fora do lugar era a mais irritante, a mais incômoda e a mais curiosa, porque carregava uma série de mistérios que ela acreditava nunca ser capaz de decifrar. Se alguém lhe tivesse contado que dali a alguns dias ela estaria daquela forma, os olhos brilhando tanto quanto brilhavam, a boca num sorriso quase que em tempo integral e a atenção tão desviada em certos momentos, ela teria rido da pessoa, e rido alto. Mas agora encontrava-se em um furacão de coisas novas e de intensidades maiores em que ela nunca imaginou estar e ela em toda a sua bagunça não achava aquilo ruim, nem de longe.
Seu espírito curioso estava de volta e ela queria saber o por que de todas as coisas mesmo sem saber explicar muitas outras, suas manias estavam mais irrefreadas do que nunca e pela primeira vez em sua vida ela não se sentia culpada por permitir-se sentir as coisas e falar tudo com sinceridade. Isso sem contar o seu espírito de criança que saltitava de saia rodada por todos os cantos e incrivelmente conseguia fazer com que ele risse alto e a olhasse com uma admiração que ela não teria conseguido imaginar nem nos seus sonhos mais coloridos. Se alguém lhe perguntasse qualquer coisa naqueles últimos dias, ela teria encontrado uma resposta satisfatória, teria inventado uma teoria muito mais forte do que as que costumava criar, sorriria e até mesmo conseguiria explicar cada movimento de seu próprio destino.
Ela estava aprendendo e juntamente com isso estava ensinando e todos os dias havia algo novo para ver ou para dizer, mesmo que todos os dias fossem iguais e ela, para sua própria surpresa, sabia não estar nem um pouco disposta de abrir mão daqueles olhos tão verdadeiramente verdes que um dia ela encontrara quase que por acaso.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Coração incomum
Não havia aquele frio na barriga tão típico da situação, como a sensação de susto ao pular o último degrau da escada sem querer, muito menos havia borboletas que esvoaçavam pelo seu estômago. Ela não gaguejava ao vê-lo e nem perdia a respiração. Ela não via nada de mau nisso.
Ela sempre achou que era diferente – pelo menos um pouco – das garotas ao redor: todas sempre sonhavam com o príncipe encantado em seu alazão reluzente, que lhes chegava com um enorme buquê de rosas vermelhas numa das mãos (chocolate não, porque engorda), e uma aliança de compromisso em outra.
Para ela, ele podia vir como fosse, não lhe importava tanto assim: podia ser um esbarrão na rua, ou uma informação ali na esquina, ele poderia lhe oferecer um doce qualquer e ela lhe sorriria como criança e aceitaria sem pensar duas vezes e a aliança poderia muito bem lhe passar batido, pois o que lhe importava mesmo (e sempre havia sido assim com ela) era o compromisso que ele teria com ela de fato e não apenas um adorno que tão comumente é usado só para fazer barulho, para causar impressões. Ele poderia insistir que era para ela lembrar-se dele, mas ela lhe replicaria com suavidade (e as vezes até com impaciência) que todos os dias ela acordava e se lembrava dele e que não precisava de nenhuma fita amarrada no dedo para que se lembrasse.
Ela era considerada bem da esquisita, sabia. Sabia que ele também tinha essa opinião, mas estava pouco preocupada, pois sabia que ele iria gostar até mesmo das manias mais absurdas, e até poderia vir a admirá-las. E ignoraria com afinco os olhares do resto do mundo que estranharia aquela garota que namorava um amigo, porque não lhe importava: ela sabia desde muito tempo atrás que nada com ela seria comum. Tanto mais seu amor.


