quarta-feira, 18 de junho de 2014

Carta a uma amiga

Oi.

Hoje eu estou triste. Não tenho como não estar, porque você deixou esse plano. Acabou sua passagem por aqui.
Espero que, como você fazia, eu não deixe essa tristeza me consumir por muito tempo.
Não quero escrever nada na sua página do Facebook, estava achando tão lindo aquela corrente de oração e de fé, apostando na sua recuperação e não quero registrar esse momento lá. Opção minha.
Prefiro escrever uma carta, sei lá se deve ser bobeira, mas vai que eu dou sorte e por aí também tenha quem psicografe recados...

Eu só tenho a te dizer que, por mais ou menos três anos eu tive o prazer e a honra de conviver com você, uma pessoa que tinha uma condição um pouco diferente das demais, mas que aceitava suas limitações e que levava a sua vida de acordo com o ritmo que podia, mas que nunca se entregou, nunca deixou que sua fraqueza dominasse o que tinha de forte em você. E me ensinou que aceitar o que Deus coloca nas nossas vidas é a nossa maior oportunidade, porque chorar e espernear não vai conseguir fazer com que nada seja diferente.
Você andava devagarinho, mas dirigia rápido. Uma vez você me falou que era pra compensar a velocidade que você andava. Era essa a sua maneira de encarar as coisas, sempre dando seu jeito.
As vezes, quando a gente ia almoçar no shopping, eu começava a andar mais rápido (costume de querer fazer tudo logo, acho que culpa da ansiedade) e você logo falava "Ei! Dá pra parar de correr?" E eu ria, pedia desculpas e desacelerava o passo, lembra?
Aprendi com você que as pessoas têm limites diferentes, vidas diferentes e entendi que o respeito pelos limites, tanto os nossos quanto os dos outros é imprescindível para vivermos em paz.

Eu lembro que quando eu comprava um carregamento de livros, você sempre ficava mexendo comigo, falando que eu ia encher o quarto e não ia mais conseguir entrar, mas quando eu ficava em dúvida se comprava ou não, você sempre incentivava.
Quando você começou a levar mais livros pra ler no trabalho, eu encontrei um marca página e te dei de presente, porque eu gostava de ver você animada com as histórias. Foi uma coisa tão pequena, mas você ficou tão feliz que parecia que eu tinha te dado um pônei cor de rosa!

Quando eu consegui a bolsa para fazer o mestrado você me deixou uma mensagem de voz tão linda, dizendo emocionada que sempre acreditou na minha capacidade e que eu merecia tudo aquilo que eu desabei no choro, ouvi várias vezes. Agora eu estou com uma ligeira (enorme) raiva de mim por ter formatado o celular e ter esquecido de fazer backup pelo menos disso.

Já tinha uns dias que você não via o sol e hoje, o dia que você deixou sua casca aqui, o dia está engraçado:  olhei lá fora, faz sol e um pedaço do céu está azulzinho, bem bonito, mas um pedaço dele tá todo branco, como se soubesse que o dia tem que ser bonito pra receber você, mas também respeita nossa tristeza.


Eu tenho sido egoísta nos últimos dias, deixei de rezar a Deus pra que Ele exercesse a vontade Dele e pedi só pela minha vontade, de que você acordasse e pudesse sentir o ar entrando nos seus pulmões novos.
Sempre achei você louca por querer arriscar essa cirurgia, acho que até cheguei a falar para você, mas eu nunca te disse que não queria que você fizesse. Mas eu não queria, porque queria você mais tempo aqui com a gente. Egoísta de novo, eu sei. Mas você não pode me culpar, sua presença era agradável, oras!

Eu não queria que você fizesse a cirurgia porque, as pessoas que brincam de deus ainda não têm o poder de decidir quem vai e quem fica e só arriscam. Claro, a vontade é que dê certo, mas ainda é um tiro no escuro.

Não consigo me acostumar com a ideia, saco. É a vida, todo mundo vai morrer um dia, mas não consigo. É como se eu perdesse alguém da família. Fico pensando toda hora que não vou poder mais mandar um vídeo esdrúxulo quando achar e nem qualquer outra bizarrice que fazia você dar risada até cansar.
As vezes eu até me arrependia de te mandar essas loucuras pq vc ficava com falta de ar de tanto que ria. Vou sentir falta de você me mandando dicas de esmalte, das horas de almoço que a gente passava fazendo as unhas e de te encher o saco porque você não comia salada.

Hoje eu estou triste e vou ter que lidar com o vazio que você está deixando. Mas vai passar e eu sei muito bem pra onde você me mandaria se eu me prendesse por muito tempo a isso.
Se alguém merecia o céu e estar cercada de anjos e pertinho de Deus, é você. Ninguém queria que fosse agora, que fosse tão cedo, mas o que me conforta é saber que você vai estar bem.
Mais do que nunca eu desejo que a gente possa ter outras vidas, pra que eu tenha a chance de encontrar com você por aí de novo, só para eu te encher mais o saco e a gente dar mais risada.
E faz um favor pra mim: Suba essas escadas para o céu de um fôlego só. ♥

2 comentários:

Vinicius Kmez disse...

Muito lindo amor... que ela possa correr livre agora!

Joyce Mesquita disse...

Ai Ana quase fui junto com a Ro com esse texto que escreveu muito lindo... desabei de chorar :'(